11 de julho de 2011
Imprimir | Indicar a um amigo Transtorno Bipolar: diagnóstico confuso.

O excesso de diagnósticos, de estudos científicos e de conflitos conceituais registrados nos últimos anos acerca do transtorno afetivo bipolar (TB) reacendeu o debate sobre qual é a forma correta de identificar e tratar o distúrbio.

No Brasil, especialistas reunidos na sétima edição do Congresso do Cérebro, Comportamento e Emoções, que ocorreu em Gramado (RS), no mês passado, puseram em evidência os principais pontos de debate sobre o mal: o tempo ideal de observação do paciente para a realização do diagnóstico e a análise do aumento de energia e atividade na identificação do problema. Essa discussão, no entanto,vai longe e já virou mania no embate entre psiquiatras para apontar o caminho mais correto a seguir. Em todo o mundo, há uma ansiedade tão grande em afirmar que esta ou aquela forma de diagnóstico é a definitiva que chega a irritar alguns profissionais de comprovada experiência. “O que ocorre é que estão banalizando esse conceito e ampliando o seu espectro. É preciso tomar muito cuidado, porque, com isso, aumenta-se o número de casos, e até uma simples alteração de humor passa a ser (vista como) transtorno bipolar”, desabafa Valentim Gentil Filho, professor titular de psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).

O transtorno afetivo bipolar— anteriormente conhecido como psicose maníaco-depressiva (PMD) — caracteriza-se, em geral, pela ocorrência de fases de mania e depressão, isoladas, ou pela presença de episódios mistos (veja arte), com duração média de uma semana, segundo algumas correntes da medicina. Mas esses surtos ou crises, separados ou mistos, são observados por ângulos diversos, dependendo da visão de grupos antagônicos.

Determinadas escolas da psiquiatria orientam a observação do paciente em potencial por quatro dias, até se definir o diagnóstico. Mas agora discute-se a possibilidade, no Brasil, de adoção do padrão norte-americano, que indica um período de apenas 24 horas de investigação dos sinais, ou de dois dias, de acordo com os congressistas de Gramado.

Essa diversidade de paradigmas terapêuticos tem provocado insegurança na própria categoria de psiquiatras, principalmente naqueles que ainda estão em formação ou possuem pouca experiência.

“Há uma inflação de diagnósticos e isso só interessa a grupos científicos, políticos e médicos e à indústria farmacêutica”, define Gentil. “A verdade é que tem muita gente sendo tratada de depressão quando tem transtorno bipolar. Mas também ocorre o contrário”, reforça Diogo Lara, professor de biociências da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e coordenador do Ambulatório de Bipolaridade do Hospital São Lucas, de Porto Alegre.

Segundo Diogo Lara, é preciso rever o quanto antes o conceito do distúrbio. “Tratar depressão como bipolaridade é perigoso, porque o paciente pode tomar remédios que, em vez de melhorar o quadro, complica a vida ainda mais”, resume o médico, autor de Temperamento forte e bipolaridade (editora Armazém de Imagens). “Os clínicos e ginecologistas são os que mais confundem o diagnóstico e acabam prescrevendo medicamentos inadequados”, alerta o psiquiatra Raphael Boechat, da Universidade de Brasília (UnB).

Controvérsias

O tema é tratado com preocupação e cautela pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). O presidente da entidade, Antônio Geraldo da Silva, explica que há divergência entre o que prega o Manual Diagnóstico e Estatístico de Desordens Mentais, elaborado pela Associação Americana de Psiquiatria, e o que defende a Classificação Internacional de Doenças (CID-10), da Organização Mundial de Saúde (OMS). “Só existe uma saída para o paciente: procurar um bom especialista. Os diagnósticos de TB, em sua maioria, são feitos de maneira inadequada”, critica Silva.

Estudos atuais de várias entidades espalhadas pelo mundo indicam que a quantidade de pessoas com o distúrbio varia de 2% a 8% da população do planeta (em torno de 450 milhões de pessoas) e asseguram que pelo menos 25% dos habitantes já tiveram, têm ou terão depressão. Para o presidente da ABP, no Brasil, em torno de 5% da população (cerca de 10 milhões de pessoas) sofrem da desordem mental. “Não podemos ser exatos, até porque no Brasil não existe política pública de saúde mental. A maioria das pessoas que apresenta distúrbios está fora do sistema, muitos estão nos presídios, e não há sequer distribuição gratuita de remédios.”

O jornalista Lincoln Brum, 69 anos, faz a mesma crítica. “Dão importância a todos os tipos de doença, menos às doenças mentais”, declara Brum, que faz controle do distúrbio desde 1986, quando soube que suas alterações de humor iam além da depressão ou da agressividade. “Meus impulsos eram perigosos para mim e para os outros”, conta.

Ele foi salvo do próprio comportamento por uma ex-namorada psiquiatra. “Ela me levou a um especialista e comecei a me tratar. Se não fosse isso, eu não estaria aqui conversando com você.” Hoje, Brum é um associado veterano do Núcleo de Mútua Ajuda a Pessoas com Transtornos Afetivos (Apta), que funciona na UnB. “Não há nada melhor. As pessoas que têm esse problema se entendem e se ajudam.”

Antes do tratamento, o jornalista era frequentador assíduo do bar Beirute, na Asa Sul, e da 2ª Delegacia de Polícia, na Asa Norte. Isso porque ele não cruzava os túneis das tesourinhas para atravessar os eixos rodoviários Norte e Sul, como todo motorista deve fazer. Pegava a sua velha Belina e passava por cima dos gramados. “Sem falar nas brigas, que eram muitas. Depois entrava em depressão e passava 24 horas dormindo”, relembra. Brum trabalhava na época na TVEducativa, por onde se aposentou. “Perdi tudo, menos o emprego.” O ônus maior de sofrer, sem saber, de um distúrbio tão grave foi a proibição de ver os filhos e de se aproximar da ex-mulher. “Mas hoje, quando não vou à casa de meu sogro ver meus filhos, eles reclamam”, comemora o jornalista, que não tem surtos desde 2005.

O transtorno afetivo bipolar vem sendo posto em perspectiva por estudiosos, com maior profundidade, desde 1990, quando a OMS fez a última revisão da CID (a próxima atualização deve sair em breve). Valentim Gentil Filho, da USP, afirma que essas são meras classificações burocráticas da doença. “O especialista tem de se preocupar em realizar na consulta uma anamnese (entrevista) bem feita, deve conhecer a história familiar do paciente, levantar o estado geral de saúde dele, saber se usa drogas e adotar outros procedimentos até que tenha segurança no diagnóstico”, observa o psiquiatra.



Fonte: Correio Braziliense Saúde | Pág. 25 - Clipado em 11/07/2011




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Palavras de Moacyr Scliar

Na qualidade de profissional da área da saúde, tenho a maior admiração por "O Cuidador", bela publicação editada por Marilice Costi que preenche, com sensibilidade e competência, uma lacuna: aquela representada pela necessidade de amparar os que cuidam de pessoas com limitações. Este periódico é um benefício para toda a sociedade.



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