08 de agosto de 2016
Imprimir | Indicar a um amigo IVO PITANGUY - Cuidador da Autoestima e inovador na Plástica Brasileira

Despediu-se um nome de rara grandeza. Mineiro de Belo Horizonte, Ivo Pitanguy se elevou a referência mundial em uma área que ajudou a transformar. O cirurgião plástico morreu em casa, aos 93 anos, na tarde de sábado, em decorrência de uma parada cardíaca. Na sexta- feira, sentado em uma cadeira de rodas, horas antes da abertura oficial da Olimpíada do Rio, ele conduziu a tocha olímpica no bairro de Botafogo, zona sul carioca.– Foi o professor que criou a maior escola de cirurgia plástica do mundo. Se o Brasil é hoje uma referência em cirurgia plástica, deve isso a ele – disse Arnaldo Lobo Miró, presidente da Associação dos Ex-Alunos do Professor Ivo Pitanguy.Formado em Medicina pela Faculdade Nacional de Medicina (atual Universidade Federal do Rio de Janeiro) em 1946, Pitanguy desenvolveu métodos que se tornaram referência internacional. Com prolífica produção literária, o cirurgião era membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), tendo sido eleito titular da cadeira 22 em 1990. Casado com Marilu por mais de 50 anos, teve quatro filhos e cinco netos.Em 2015, Pitanguy foi internado algumas vezes com problemas renais. Em setembro, ficou no Centro de Terapia Intensiva do Hospital Samaritano, no Rio. Depois disso, passou a fazer hemodiálise periodicamente. Em novembro, voltou a ser internado com deficiência renal. O corpo do médico foi velado no Memorial do Carmo, na tarde de ontem, e depois seria cremado.Filho de um médico de Belo Horizonte, o jovem Ivo Hélcio Jardim de Campos Pitanguy, nascido em 1926, não parecia ter ousado muito ao escolher sua carreira. Resolveu cursar Medicina, como o pai. Bem mais incomum para a época, no entanto, foi o que ele escolheu fazer depois de formado, em 1946: partir para o Exterior para se especializar em cirurgias estéticas.

MUTIRÃO PARA VÍTIMAS DE INCÊNDIO

Com a ajuda de bolsas de estudo de instituições americanas e britânicas, Pitanguy passou por hospitais dos Estados Unidos, da França e do Reino Unido, aprendendo os fundamentos com especialistas que estavam tratando pessoas desfiguradas durante a II Guerra Mundial, por exemplo. Por isso mesmo, colegas e ex-alunos do médico afirmam que, apesar de sua reputação estar muito ligada às cirurgias de efeito puramente estético, Pitanguy se destacou primeiro como um especialista em cirurgias reparadoras, lidando com casos de deformidades congênitas ou de ferimentos por queimaduras.Antes de ter sua própria clínica, e mesmo depois de passar a atender pacientes nela, Pitanguy realizava cirurgias de mão e outros procedimentos na Santa Casa do Rio e no Hospital Souza Aguiar.O médico e seus colaboradores, aliás, ganharam renome nacional por fazer um mutirão para atender as vítimas de um dos piores incêndios da história do país, que afetou o Gran Circo Norte-Americano, instalado em Niterói (RJ), em dezembro de 1961. Das mais de 3 mil pessoas presentes no circo quando o fogo começou, mais de 2 mil sofreram queimaduras, muitas das quais bastante graves, sendo atendidas pela equipe.– Isso teve enorme repercussão para a reputação dele – afirma o cirurgião plástico Pedro Martins, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), ex-aluno de Pitanguy, assim como seu filho.Médico de “grande formação humanista”Pitanguy começou a se destacar por sua criatividade, desenvolvendo novos métodos que acabariam se tornando o padrão-ouro das intervenções cirúrgicas de sua área, diz Pedro Martins.– No caso das cirurgias mamárias, as técnicas que ele desenvolveu para diminuir o tamanho das mamas ou corrigir mamas caídas foram revolucionárias para a época – lembra o médico.Martins explica que, nesse tipo de intervenção, o costume era definir, já antes da cirurgia, o ponto onde ficaria o chamado complexo areolo-mamilar, ou seja, o conjunto formado pelo mamilo e pela aréola, o círculo mais escuro em volta dele. Pitanguy, por outro lado, passou a definir esse posicionamento apenas depois que a “nova” mama da paciente era rearranjada, levando em conta fatores como o biótipo da mulher que estava sendo operada, dando mais naturalidade ao resultado.– Hoje, esse ponto onde o mamilo é colocado é conhecido como ponto de Pitanguy – diz Martins.Segundo ele, o cirurgião mineiro também desenvolveu técnicas inovadoras para problemas como fissuras nos lábios e no céu da boca (como no caso do chamado lábio leporino), bem como lesões causadas pela retirada de tumores de pele.

AUTOR DE CENTENAS DE LIVROS E ARTIGOS

Cláudio Rebello, membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, destaca a “grande formação humanista” do colega:– Quando ele ia para o estrangeiro, sempre fazia questão de aprender a língua. Dava conferências em alemão na Alemanha, em italiano na Itália, e assim por diante.O interesse de Pitanguy por línguas também ajuda a explicar sua vasta produção acadêmica: ele é autor de centenas de livros e artigos sobre cirurgias estéticas publicados em português, inglês, espanhol, francês e italiano.– Nós estamos perdendo um de nossos mais representativos acadêmicos, alguém que honrava a casa. Estou muito impactado, bastante emocionado – diz Domício Proença, presidente da ABL. – Ele era representativo em todos os sentidos, como acadêmico, como amigo e como cidadão. Ele cumpriu o destino dele com a vida que teve – acrescenta.Também imortal, o escritor Antônio Carlos Secchin lembra a “elegância e discrição” de Pitanguy:– Ele era uma pessoa muito interessante, era um humanista, tinha uma cultura literária muito vasta, isso me impressionou favoravelmente. Ele não se limitava à medicina.O Pitanguy era uma figura ímpar. Cirurgião extremamente habilidoso, pegou o nascimento da cirurgia plástica estética e soube projetá-la como ninguém. Operou pessoas de todo o mundo. Nenhum médico brasileiro da sua geração conseguiu a repercussão interna cional que ele teve. Isso despertou muita inveja, ele sofreu muita pressão, mas com o tempo todos se renderam às evidências.

DRAUZIO VARELLAOncologista e escritor

O Brasil perde um de seus mais renomados cientistas e intelectuais. Ivo Pitanguy dedicou avida a ajudaras pessoas a viverem melhor. É, também, autor de um importante trabalho social que privilegia o atendimento aos mais necessitados. Fará muita falta.

E você? O que gostaria de falar sobre Pitanguy?

 

 Clipagem 08/08/2016 05h20m



Fonte: Zero Hora - Obituário - p.25




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Palavras de Moacyr Scliar

Na qualidade de profissional da área da saúde, tenho a maior admiração por "O Cuidador", bela publicação editada por Marilice Costi que preenche, com sensibilidade e competência, uma lacuna: aquela representada pela necessidade de amparar os que cuidam de pessoas com limitações. Este periódico é um benefício para toda a sociedade.



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