13 de agosto de 2015
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Clube social pertence promove socialização de jovens e adultos com deficiência intelectual, levando-os a bares, restaurantes, parques, museus, salas de cinema e de teatro 

Bastaram os primeiros acordes de Lua de Cristal para o grupo se animar, logo na chegada ao bar, e cantar em coro o hit de Xuxa. Caça e Caçador, na interpretação de Fábio Jr., fez Fernanda de Souza se postar diante do microfone, dançando e encorajando os outros a subirem ao palco. Alguns tropeços na sincronia e voz por vezes se antecipando à letra exibida no monitor do karaokê não constrangeram a estudante de 24 anos, que entoou forte o refrão:
– A gente nem pensa na hoooora, passa dia e noite assiiiim!
Fernanda e outros 18 amigos aproveitaram a noite do último sábado no Boteco Babilônia, na Capital, em mais um programa da sortida agenda do Clube Social Pertence, serviço que promove a sociabilização de jovens e adultos com deficiência intelectual. Pagando uma mensalidade, os participantes podem frequentar oficinas de culinária, teatro, artes, fotografia e ginástica, entre outras modalidades, e, aos finais de semana, curtir boates, shows, sessões de cinema e teatro, parques e restaurantes.

VIVÊNCIA LONGE DA FAMÍLIA

O projeto foi idealizado por Sarita Zinger, professora que trabalha com pessoas com deficiência há 15 anos. Em aulas particulares, ela percebeu que faltava aos alunos – com autismo, síndrome de Down ou limitações decorrentes de problemas no parto – um repertório próprio de vivências longe do núcleo familiar.
– Eu via que eles não tinham vida social. Os amigos dos pais eram os amigos deles. Eles não tinham o que contar do final de semana. Quis formar grupos a que eles pudessem pertencer – explica.
Uma van busca os participantes em casa, e as saídas são acompanhadas por seguranças e cuidadores. Com a convivência, as amizades se fortalecem – de aniversário no sábado, Sarita recebeu presentes e levou uma torta para celebrar a data. Uma das mais assíduas ao microfone, Fernanda definiu o que sente depois de 11 meses no clube:
– Para mim, ninguém tem deficiência.
Recíprocas ou não, paixões também surgem. Gabriel Prudêncio Vicente, 28 anos, namora há um ano uma companheira do Pertence. O auxiliar de escritório deixou a consorte na mesa e se aventurou no karaokê com Cadê Você?, de Odair José, proferindo versos que destoam do seu momento atual: “O tempo vai, o tempo vem, a vida passa, e eu sem ninguém”.
– Senti um pouco de vergonha. Um pouco só – descreveu Gabriel após a performance.
Os locais visitados são informados com antecedência sobre as particularidades do grupo. Nos quatro anos de atividades, não houve registro de problemas ou mal-estar com o público em geral. Certa vez, no Bar Opinião, um “trenzinho” iniciado pelo Pertence contagiou os presentes, que saíram saltitando pela pista. No Babilônia, o coordenador Victor Daniel Freiberg abordou um casal, desculpando-se pelo alto volume da empolgação dos jovens cantores. Clientes assíduos, Almir, 62, engenheiro, e Elisabet Flores, 60, dona de casa, deixaram claro que não estavam incomodados, compartilhando o microfone com os membros do Pertence. Na escolha do repertório, Almir evidenciou as boas-vindas com uma canção da Turma do Balão Mágico:
– Somos amigos, amigos do peito, amigos de uma vez. Somos amigos, amigos do peito, amigos de vocês.


Educadores recomendam diversidade de relações


Especialistas reconhecem a importância de projetos que incentivam a socialização de jovens e adultos com deficiência a partir de um grupo de iguais, mas destacam que é fundamental que a integração se dê também entre indivíduos com características diversas.
– Conviver com todas as diferenças humanas me parece uma posição mais saudável – afirma a pedagoga Marlene Rozek, doutora em Educação e coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Aprendizagem e Processos Inclusivos da PUCRS (Nepapi).
Maura Corcini Lopes, coordenadora do Grupo de Estudo e Pesquisa em Inclusão da Unisinos, diz que o ideal é que as pessoas com deficiência estejam cada vez mais incorporadas à população, que terá o olhar treinado para o diferente:
– Há pouco tempo, as pessoas com deficiência não circulavam. Aquele que não circula, não aparece, também se mantém numa espécie de silêncio. Qualquer forma de circulação é bem-vinda.
Coordenador do Clube Social Pertence, Victor Freiberg lamenta que o processo de inclusão no Brasil, em escolas e empresas, ainda apresente tantos entraves. Ele conta que muitos dos jovens e adultos que chegam ao clube têm um histórico de más experiências envolvendo preconceito e bullying.
– Geralmente, eles se sentem mais à vontade no grupo de iguais – justifica Freiberg.

Clipagem 13/08/2015 07h10m



Fonte: Zero Hora - Sua vida p. 30




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Palavras de Moacyr Scliar

Na qualidade de profissional da área da saúde, tenho a maior admiração por "O Cuidador", bela publicação editada por Marilice Costi que preenche, com sensibilidade e competência, uma lacuna: aquela representada pela necessidade de amparar os que cuidam de pessoas com limitações. Este periódico é um benefício para toda a sociedade.



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