04 de fevereiro de 2014
Imprimir | Indicar a um amigo Inclusão Escolar é lei

“Eu já sei ler, conheço os números, sei inglês e espanhol”, assim o pequeno Ruan Vithor Jaconi de apenas 7 anos começa a contar todas as suas vitórias individuais que divide com os pais Adryane do Passos e André Jaconi, vitórias que incluem ainda participar das aulas de música e conseguir bater no pedal da bateria, até integrar o time de futsal da escola no posto de goleiro.

Diagnosticado ainda bebê com dificuldade de mobilidade, Ruan não é visto pela escola (privada) onde estuda como um aluno com necessidades especiais e sim, um aluno com restrições motoras. Mas mesmo assim, ele tem direito assegurado. A lei 9.394 publicada em 20 de dezembro de 1996 assegura atendimento educacional especializado e gratuito aos educandos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades ou superdotação, transversal a todos os níveis, etapas e modalidades, preferencialmente na rede regular de ensino.

Porém, mesmo com os direitos assegurados, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), 47,1% da população com algum tipo de deficiência intelectual acima de cinco anos de idade era analfabeta em 2010, ano do último Censo. Nos casos de pessoas com deficiência visual, auditiva e motora, o índice de analfabetismo caiu para 16,8%, 24,2% e 28,3% respectivamente.  

Contudo, a média brasileira, de pessoas que deveriam ser beneficiados com a lei vigente foi identificada como sendo de 10,5%, conforme o Censo de 2010.

Falante, o jovem estudante conta que há três anos quando chegou na escola foi muito bem recebido tanto pelos colegas como pelos professores. “No dia que eu cheguei me trataram bem, estranharam um pouco, mas sempre me ajudaram e ainda me ajudam”, afirma ele que ao entrar na escola pela primeira vez usava andador para conseguir se locomover, mas desde o ano passado já caminha. No entanto, até chegar a atual escola, o pequeno Ruan não tem ideia de tudo o que seus pais enfrentaram para assegurar o direito à educação. De acordo com a mãe, logo na primeira consulta, um diagnóstico médico deixou em dúvida o aprendizado e a socialização do filho. “O médico chegou a falar que ele tinha retardo mental, em seguida ele nos falou que ele não ia andar, falar e que não teria acompanhamento escolar”, recorda Adryane afirmando que buscou uma segunda opinião.

“O segundo médico nos falou que era muito precoce dizer quais seriam as limitações dele, que não tinha como precisar a evolução dele, que tudo dependeria do próprio desenvolvimento, porém, nos informou que intelectualmente uma criança normal”, comenta a mãe.

Segundo ela com um diagnóstico mais otimista, uma terceira opinião médica foi buscada, quando Ruan foi diagnosticado com paralisia cerebral leve, cuja lesão afetou a parte do cérebro que comanda a coordenação motora, com maior interferência nos membros inferiores. “Ele também tem espasticidade muscular, que ao ficar nervoso ele retrai os músculos. De todo esse diagnóstico ele tem uma maior dificuldade para escrever, para andar”, comenta a mãe apontando a dificuldade de escrever como a menor barreira a ser vencida para a formação educacional do filho.

Inclusão

Adryane relata que a tão sonhada inclusão de seu filho chegou a ser um momento de angustia, principalmente pelo fato de que, “tivemos um momento de procurar vagas em creches da rede pública para deixar ele já que eu precisava trabalhar, existe a lei da inclusão, inclusive ela é linda no papel, mas tive casos que só faltaram me pedir para sair da creche”, recorda ela narrando ainda que em outra ocasião ouviu que precisava encontrar uma ajudante para que seu filho estivesse na creche.

“A lei diz que tem que ter um acompanhante, mas todos os amigos nossos que hoje tem um acompanhante com seus filhos tiveram que entrar na justiça” comenta o pai André.

Passada a fase de procura por vagas em centros de formação infantil, a família relata ter buscado auxilio na Secretaria de Ação Social. “Nos informaram que ele deveria frequentar o Rocha Pombo que é referência educacional para diversas especialidades, lá ele permaneceu por cerca de sete meses, quando a diretora nos procurou e falou que ele deveria frequentar a escola regular, e não para portadores de necessidades intelectuais como estava acontecendo”, afirma Adryane que recebeu a indicação de que a própria escola poderia estar acolhendo seu filho, porém em outra turma.

“Nos falaram que ele poderia ser alfabetizada na escola pública, porém também nos informaram que ele não tinha idade para estar ingressando nas turmas normais,  da rede pública. Foi por isso, só por isso, que passamos a buscar uma escola na rede privada”, comenta o pai.

Conquistas diárias

“Tivemos medo que a escola não aceitasse ele pelas limitações físicas dele e principalmente porque na época ele usava andador”, desabafa a mãe com a interferência do pai. “A cabeça das crianças da escola foi importante para esse convívio dele no ambiente escolar. Acredito que os colegas tenham recebido orientações da escola em relação a cuidado, mas que isso tenha ocorrido de forma natural, principalmente porque todos o receberam bem e hoje ele está completamente integrado a rotina”.

Conforme Adryane desde muito cedo Ruan foi integrado a vida em sociedade. “Muitas crianças com dificuldades sejam elas físicas ou intelectuais são mantidas a parte da sociedade como passarinhos presos em uma gaiola, e isso nós nunca quisemos para ele”, afirma ela revelando que sempre manteve uma rotina normal para seu filho. “Ele sempre se virou porque nos o deixamos encontrar um jeito que fosse o melhor para ele”.

Entre as conquistas diárias, André recorda o dia que o filho deixou o andador e passou a se locomover unicamente com suas pernas. “Foi um momento de grande euforia, na escola até fizeram festa para essa conquista, e os colegas festejaram muito mais do que ele”.

Segundo a mãe em uma conversa durante o tempo de fazer as tarefas escolares um dia ele pediu sobre suas limitações. “Um dia ele me perguntou sobre algumas coisas da escola e eu expliquei que, ele vai aprender as coisas, vai demorar um pouco mais, porém que a diferença é que ele tem que se esforçar um pouco mais para que tenha o mesmo aprendizado dos colegas, e é isso que ele vem fazendo”.






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Palavras de Moacyr Scliar

Na qualidade de profissional da área da saúde, tenho a maior admiração por "O Cuidador", bela publicação editada por Marilice Costi que preenche, com sensibilidade e competência, uma lacuna: aquela representada pela necessidade de amparar os que cuidam de pessoas com limitações. Este periódico é um benefício para toda a sociedade.



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