29 de maio de 2013
Imprimir | Indicar a um amigo Adolescentes pegam pesado na musculação arriscando a saúde mental e física.

A rotina do estudante M.V., TI 15 anos, inclui musculação seis vezes por semana e pesquisa diária na internet sobre exercícios e suplementação alimentar. ilido para ficar maior e mais forte.

O adolescente pesa 78 quilos e tem 1,81 metro. "Não acho que 15 anos seja muito cedo para malhar. Quanto mais eu treinar, mais facilmente chegarei à meta", justifica. O objetivo, no caso, é aumentar o diâmetro do seu braço de 39 centímetros para 55.

A página de M.V. no Facebook é igual a de muitos meninos dessa idade: cheia de fotos de corpos musculosos, frases motivacionais e chacotas com "frangos" ou "filés de borboleta" (jovens sem os músculos estufados, típicos de quem vive em academia).

Um estudo feito com 1.307 adolescentes e publicado no jornal americano Pediatrics, em 2012, constatou que 90% deles se exercitam para ganhar músculos. A enquete foi feita em Minnesota (Estados Unidos), mas os dados podem ser extrapolados para todo o pais, conforme a pesquisa.Até aí, tudo bem. A questão, mostram estudos internacionais e locais, é que a insatisfação dos meninos com seus corpos está em alta e, é claro, ligada à malhação exagerada. Exemplo: em um levantamento da Universidade Federal de Santa Catarina com 641 jovens de 11a 17 anos, 54,3% dos garotos se declararam insatisfeitos com sua imagem.O educador físico Marcus Zimpeck observa a tendência nas academias. "Vários adolescentes que querem ganhar corpo exageram, mas nem se dão conta", reforça.

Perigo

O hebiatra (médico especializado em adolescência) Alberto Mainieri, professor da Ufrgs (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), concorda: "Há um crescente exagero não só na frequência do esforço muscular como na intensidadeNão são mais casos isolados". Segundo ele, o excesso de treinamento nessa fase da vida é muito perigoso e pode caracterizar vigorexia. "É um vício que vai aos poucos interferindo na vida social", afirma Zimpeck. O instrutor acha que o transtorno está subdiagnosticado.

Quem tem o distúrbio nunca se satisfaz com o corpo que tem e treina obsessivamente "Muitos pesquisadores consideram a vigorexia um subtipo de dismorfofobia [um transtorno psicológico caracterizado pela preocupação obsessiva com a aparência física)", esclarece o psiquiatra Celso Alves dos Santos Filho. É o que relata o estudante G.P., 17: "ibdo mundo diz que estou bem assim: ganhei 12 quilos de músculos em oito meses, mas, quando me olho, não gosto do que vejo. Em algumas fotos até me acho mais forte, mas depois olho melhor e vejo que ainda falta muito".

Ele pesa 70 quilos e quer chegar aos 100. "Mas, se ainda estiver ruim, subirei a meta para 109 quilos", projeta. G.Padmite que pensa nos treinos em tempo integral e que os amigos reclamam do seu novo hábito. Ele se sente culpado se não puder malhar. "Se falto penso que vou perder muito peso e não vou atingir nunca minha meta." Sua vida social também foi alterada pelos treinos: "Só volto para as baladas quando ficar mais forte".

O surgimento do transtorno nessa faixa etária é favorecido pelas alterações físicas e psicológicas que ocorrem. "Adolescentes sentem a necessidade constante de aceitação. Não é à toa que dismorfofobia e vigorexia têm início nessa fase", analisa Santos Filho.
A psicanalista Dirce de Sá Freire vê nessa dedicação ao físico uma demonstração de autodomínio. "O adolescente abraça a teoria de que o corpo pode ser moldado em uma tentativa de controlar a própria vida, já que não pode controlar seu entorno", ressalta.
O diagnóstico de vigorexia é difícil. A fisiatra Isabel Chateaubriand diz atender pacientes com lesões causadas por excesso de musculação em um quadro claramente vigoréxico. "Explico ao jovem que está treinando errado e tem transtorno de imagem, mas ele não aceita. O máximo que faz é mudar temporariamente o treino até resolver o problema específico da lesão que o fez buscar ajuda", revela.

As consequências desses excessos são difíceis de prever. "A curto prazo não identificamos os malefícios no corpo, pois aos olhos da sociedade o paciente é saudável, pratica esporte. Se não fizermos os exames certos, nem saberemos que há alterações, já que adolescentes têm uma reserva de energia muito grande."

O interesse de G.P. na musculação é ficar mais atraente: "Acho legal chegar na escola bem grande e os colegas comentarem. Eu me sinto mais seguro. É um sacrifício, mas acho que vale a pena".

Para Isabel, adolescentes obcecados por músculos cumprem o papel social imposto a eles. "São fruto das nossas crenças. É preciso mudar o conceito de exercício, de estética para saúde." (Folhapress)



Fonte: O Sul - Caderno Reportagem - Pág. 8 - 29/05/2013




Deseja divulgar seu evento?

Clique aqui e preencha o formulário! É simples!





Palavras de Moacyr Scliar

Na qualidade de profissional da área da saúde, tenho a maior admiração por "O Cuidador", bela publicação editada por Marilice Costi que preenche, com sensibilidade e competência, uma lacuna: aquela representada pela necessidade de amparar os que cuidam de pessoas com limitações. Este periódico é um benefício para toda a sociedade.



Aqui outros depoimentos





Produtos Culturais e Serviços Ltda. - Bairro Farroupilha - Porto Alegre - Brasil - Fone: +55 51 3508.8009 - [email protected]