06 de abril de 2012
Imprimir | Indicar a um amigo Moderna idade: a terceira idade no século XXI - Confira os principais destaques do evento que reuniu centenas de participantes

O fenômeno do envelhecimento populacional lança desafios para praticamente todas as esferas da sociedade. Hoje, tanto no Brasil como em diversas nações do mundo, as pessoas estão vivendo mais e com melhor qualidade. Essa nova realidade sintetiza uma série de avanços de natureza social, econômica e assistencial, o que culmina por ressaltar a relevância de uma atenção mais cautelosa, focada e especializada para esse novo segmento populacional.

Tendo em foco essas questões, o Sindicato dos Hospitais e Clínicas de Porto Alegre (Sindihospa) e o Sistema Sesc/Fecomercio promoveram o evento “Moderna Idade, a Terceira Idade no Século XXI”. O evento ocorreu no prédio 41 da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), entre os dias 30 e 31 de março de 2012, contando com a presença de centenas de participantes.

Abertura oficial

Na abertura oficial do evento, que contou com a presença de diversas autoridades, o prefeito de Porto Alegre, José Fortunati, destacou que o termo moderna idade traduz perfeitamente o perfil do idoso do século XXI. “Felizmente, com o passar do tempo, a sociedade começou a compreender melhor o significado de viver com qualidade e a buscar por iniciativas que fossem ao encontro desse objetivo”.

Nesse sentido, o Dr. Newton Terra, diretor do Instituto de Geriatria e Gerontologia da PUC-RS, na ocasião representando o Reitor da PUC-RS, afirmou que a expectativa de vida que dispomos hoje é decorrente, sem dúvida, dos avanços no campo da saúde pública, além das mudanças de atitudes que as pessoas realizaram com o decorrer dos anos. “Somente no Estado do Rio Grande do Sul, temos um milhão e meio de indivíduos com 60 anos ou mais; na capital, esse contingente é de 210 mil”, informou.

Dr. Eduardo Hostyn Sabbi, representando a Diretoria do Sindihospa, destacou que o intercâmbio de opiniões e experiências alimenta uma rede que tem por finalidade incentivar o respeito, a valorização e a dignidade daqueles que ingressam no período da melhor idade. “Todos aqueles que aqui se encontram certamente irão usufruir dos benefícios decorrentes das oficinas, palestras e demais atividades oferecidas, além de enriquecerem seus conhecimentos sobre temas variados e pertinentes”, enfatizou Sabbi.

O Vice-presidente do Sistema Sesc/Fecomercio, Sr. João Oscar Aurélio, comentou que o evento Moderna Idade nasceu a partir da identificação da necessidade de adotar novas formas relacionadas ao atendimento ao idoso. Aurélio disse ainda que, na medida em que envelhecemos, “cabe a cada um ponderar sobre o modo mais adequado para manejar essa nova configuração em nossas vidas”. 

Planejamento de vida 

A jornalista Isabel Ferrari foi a mediadora do painel “Aprendendo a envelhecer”, que contou com a participação do Cardiologista Dr. Flávio Kanter, do Psiquiatra Dr. Marcello Blaya Pérez e do Geriatra Dr. Newton Terra. Terra enfatizou que o processo de aprendizagem para um envelhecimento com sucesso inicia desde muito cedo. “Alguns estudiosos estimam que, por volta dos 30 anos, o indivíduo já deve começar a planejar o seu envelhecimento, modificando hábitos e melhorando o seu estilo de vida”. O especialista destacou que o ser humano é dependente 30% de sua herança genética, sendo os 70% restantes tributados ao estilo de vida.

Acrescentando, o médico psiquiatra Dr. Marcello Blaya Pérez afirmou que “nada ocorre na vida, por volta dos 60, 70 ou 80 anos que não tenha sido plantado aos 20 ou 30 anos”. Logo, os fatores que podem ou não contribuir para um melhor estado de saúde irão se refletir durante toda a existência da pessoa.

Já o Dr. Flávio Kanter centrou sua discussão abordando sobre a importância de um acompanhamento médico personalizado para que o ingresso na terceira idade ocorra com maiores chances de sucesso. Hoje, a literatura especializada aponta para a importância do exame periódico de saúde (EPS). Na visão do cardiologista, esse moderno entendimento “visa identificar em cada pessoa qual é a sua história, os seus hábitos e qual a sua herança genética”. A partir dessa análise, os profissionais de saúde estarão aptos para sugerir a remoção dos fatores de risco, para estimular hábitos saudáveis, além de indicarem, com base na reflexão particularizada de cada caso, o envolvimento com atividades laborais e de lazer e também a convivência com grupos.

Acrescentando a essa discussão, a Dra. Janete Viccari Barbosa enfatizou sobre a importância de perseguir o objetivo da longevidade, de agregar qualidade a esses anos. “Nos últimos 20 anos, a expectativa de vida aumentou vertiginosamente no Brasil, e a tendência é aumentar ainda mais”, pontuou. Em nível internacional, a especialista destacou que um em cada dez habitantes tem 60 anos ou mais.
Dentro desse contexto, os gestores de saúde foram tomando consciência para a importância de não atuar somente no tratamento das doenças, mas de também investir na promoção de saúde. Assim, estilos de vida saudáveis e os fatores protetores de uma qualidade de vida ganharam importância. “A qualidade do sono, a manutenção do peso saudável, o consumo moderado de álcool e a eliminação do fumo” emergiram como importantes determinantes para uma qualidade de vida.

Também, os participantes tiveram a oportunidade de apreciar a apresentação do Coral do SESC de Cachoeira do Sul.

A importância do ato de viajar

A atividade intitulada “Viajando por viajar”, mediada pela jornalista Laura Medina, contou com a participação do fotógrafo Flávio Del Mese, que enfatizou sobre os benefícios que um indivíduo idoso pode alcançar durante as viagens. “Conhecer novas pessoas, entrar em contato com outras culturas e aumentar a bagagem cultural são alguns desses aspectos”. 

Além disso, o especialista atentou para a prática da fotografia como um subsídio para o registro das viagens e recordações. Mese ponderou acerca de alguns aspectos que o idoso deve considerar e se precaver antes de viajar. Por exemplo, a pessoa que se encontra na terceira idade deve tomar alguns cuidados durante suas atividades turísticas. “No exterior, pode ser difícil ter acesso a alguma medicação, bem como pode ser mais complicado ter assistência médica”, destacou.

Após a discussão sobre as vantagens, os cuidados a serem tomados se também as especificidades de viajar durante a moderna idade, ocorreram algumas apresentações artísticas. Por parte da ONG Movimento do Despertar para a terceira Idade, ocorreu a apresentação de Dança Espanhola. O Grupo Oncoarte também realizou a sua apresentação artística e, finalmente, houve a Apresentação do Coral do Sindicato dos Servidores Públicos Aposentados e Pensionistas do Estado do Rio Grande do Sul (SINAPERS).  

A questão da moradia

Outra problemática de interesse, que envolve também os demais familiares, é a questão da moradia e condições específicas para as pessoas que adentram a terceira idade. Dessa forma, o médico Paulo Renato Canineu esclareceu alguns fatos relevantes sobre as instituições de longa permanência.

Antigamente, o termo asilo era utilizado com conotação negativa para designar as instituições “de depósito” e voltadas para os cuidados da pessoa idosa. “Hoje, verifica-se, na maioria dos casos, que nesses ambientes ocorre um tratamento mais humanizado. Com atenção especializada e cuidados constantes”, lembrou.

Canineu comentou ainda que o Rio Grande do Sul é o estado pioneiro nos estudos com o foco no envelhecimento humano. Além disso, o especialista destacou a diferença entre as profissões de geriatra e gerontólogo. “A geriatria é uma parte da gerontologia, inserida como especialidade da medicina e que é responsável pelo diagnóstico e tratamento das doenças relacionadas ao envelhecimento; a gerontologia, por sua vez, pode ser exercida por outros profissionais, como enfermeiros, assistentes sociais, psicólogos, entre outros”, afirmou. Todos estes profissionais atuam conjuntamente nas instituições de longa permanência, com o foco no trabalho multidisciplinar e integral.

A sexualidade

A temática da sexualidade na terceira idade também foi um dos assuntos de destaque durante o Moderna Idade. A Drª Sandra Scalco, ginecologista e sexóloga, afirmou que a qualidade de vida sexual é considerada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um dos componentes que afetam a qualidade de vida de uma população. Além disso, o trabalho, o lazer e a família completam a lista de indicadores considerados pela OMS, lembrou. Dessa maneira, mesmo no envelhecimento, uma vida sexual satisfatória ajuda na promoção da saúde, sendo “importante, antes de tudo, não fechar as portas para as oportunidades que a vida oferece”.

Já o urologista Dr. Carlos Cairoli também lembrou que na atualidade há uma maior conscientização do papel central que ocupa a vida sexual para uma satisfação mais plena com a vida. No que diz respeito ao sexo masculino, o especialista afirmou que, durante o envelhecimento, a incidência de disfunção erétil atinge cerca de 50% dos indivíduos. Além disso, a vida sedentária, a obesidade e os hábitos alimentares podem ser explicações possíveis para o fato. O especialista também alertou que, mesmo para as pessoas com 80 anos de idade ou mais, há o risco de ocorrência das doenças sexualmente transmissíveis. “O descuido quanto a esse aspecto deve ser orientado pelos médicos e exames preventivos são fundamentais”, afirmou Cairoli.

Também, foi realizada a exibição do filme “Dança da Vida Sexualidade na Terceira Idade”, dirigido por Juan Zapata.

A violência contra o idoso

A jornalista Isabel Ferrari mediou a atividade que contou com a presença da escrivã de polícia Najla Maria Rodrigues dos Santos e da assistente social Patrícia Grossi e que focou no tema dos Direitos e Segurança da pessoa idosa.

Grossi lembrou que a violência praticada contra o idoso não se restringe somente à agressão física. "É importante destacar formas de violência mais sutis, que denotam a invisibilidade com a qual a agressão pode se manifestar", afirmou. Dentre esses formatos de violência, a especialista citou a exclusão da pessoa idosa das decisões familiares, o isolamento e também as situações de violência psicológica.

Najla ressaltou que é frequente o comparecimento de idosos às delegacias em razão de condutas de negligência por parte dos filhos. Além disso, destacou que cerca de 85% das queixas são de idosos agredidos dentro da própria família, sobretudo por filhos e netos.
"Há ainda um predomínio de queixas por parte de idosas do sexo feminino", lembrou. A escrivã frisou a importância do idoso buscar seus direitos e consultar uma rede de apoio e os serviços de assistência social ou até mesmo as delegacias especiais. “Como primeira opção, temos os Centros de Referência em Assistência Social; depois, os Centros de Referência Especializados em Assistência Social”, informou.
Além da exposição das prerrogativas constitucionais e demais leis que regem o direito ao idoso, como o próprio estatuto da pessoa idosa, Najla alertou sobre os golpes mais comuns que atingem esse segmento da população. “É preciso difundir a conscientização acerca dos mais diversos golpes”, defendeu. Além disso, é preciso olhar para a violência institucionalizada contra o idoso, como no caso dos empréstimos consignados, com juros abusivos. Nessas ocasiões, muitas vezes, são os próprios familiares que forçam o idoso a contrair dívidas.

A atitude empreendedora

A atitude empreendedora do idoso também foi debatida durante o Moderna Idade. A gerente da ONG Parceiros Voluntários, Cláudia Remião Franciosi, lembrou que antigamente o trabalho voluntário remetia a uma postura assistencialista. Hoje, porém, a expectativa em realizar um trabalho voluntário perpassa uma dedicação ao outro.

“O voluntariado pode ser muito mais do que simplesmente ensinar a pintar ou bordar; a ação envolve a transmissão de algo que a pessoa domina, mesmo que tenha aprendido na ‘escola da vida’, e que pode ser altamente produtivo”, destacou. Franciosi acrescentou também que o voluntariado pode ser uma oportunidade de inspirar ações positivas e fecundas, criando um círculo virtuoso.

Além disso, a discussão foi enriquecida com o depoimento da atriz Lourdes Kauffmann, que afirmou que o empreendedorismo, durante o processo de envelhecimento, reforça o sentimento de importância, produtividade, energia e realização. “O idoso tem sabedoria e vivência, e quando a sua fase laborativa foi concluída, emerge um momento de libertação e uma oportunidade de autorrealização”, lembrou.
Especialmente em relação ao idoso que precisa complementar a renda, Kauffmann comentou que, mesmo que possam existir limitações físicas, ainda sim é possível fazer a diferença. “O que precisamos é encontrar aquilo que sabemos fazer, vencer as nossas limitações pessoais e buscar a superação”, destacou.

A espiritualidade

O médico cardiologista Fernando Lucchese abordou o relacionamento que existe entre espiritualidade e saúde física. Embora o estudo sobre espiritualidade seja relativamente recente, tendo iniciado há aproximadamente 10 anos, as evidências indicam que uma prática espiritual exerce um fator protetivo à saúde.

Além disso, o cardiologista citou recentes investigações científicas que apontam para os impactos do egoísmo, do pessimismo e outras emoções negativas no adoecimento. Por outro lado, as pessoas com maior propensão a solidariedade vivem, em média, 7 anos a mais do que aqueles que não apresentam tal comportamento. “Ademais, pessoas mais otimistas e com práticas voltadas a espiritualidade também vivem mais e apresentam menor incidência de câncer e infarto”, destacou.

“É importante, finalmente, diferenciarmos espiritualidade e religiosidade”, comentou Lucchese. Enquanto religião é entendida como um conjunto organizado de crenças e rituais, a espiritualidade é uma busca pessoal pelo entendimento e envolvimento com o sagrado. Assim, com base em tantas evidências, cerca de dois terços das faculdades americanas de medicina estão incluindo disciplinas que buscam compreender a intersecção entre espiritualidade e corpo.

Após a exposição de Lucchese, ocorreu e apresentação do coral da ONG Movimento do Despertar para a terceira idade.

A criatividade

O psicanalista Julio Conte abordou como a criatividade pode ser alcançada durante o período do envelhecimento. Sua exposição contou com a mediação da jornalista Laura Medina. Conte destacou que a teoria do processo criativo fundamenta-se na teoria do caos, no qual ocorre uma turbulência intensa de ideias.

“Em um momento de maior atividade, ocorre também maior criatividade”, afirmou. Dessa maneira, as pessoas mais criativas mostram-se mais capazes de suportar o fracasso e também uma maior abertura para experimentar fatos e situações novas.

Além disso, o psicanalista destacou dois tipos de criatividade. Um desses tipos consiste em criar algo novo, que irrompe e recria as coisas; já o outro tipo diz respeito ao modo de utilizar e manter as invenções, não recusando a vivência daquilo que é novo. “O grande inimigo da criatividade é o medo do desconhecido e o foco no passado, não permitindo à abertura a novas oportunidades que a vida oferece constantemente”.

Novas tecnologias

Rodrigo Medeiros, da empresa de medicamentos genéricos EMS, abordou sobre as implicações das novas tecnologias e das altas demandas presentes na era atual no tocante ao cotidiano dos indivíduos. “Celulares, notebooks, smarphones, dentre outros dispositivos, permitem que as pessoas fiquem 24h on-line”. Isso tem gerado, na visão do especialista, diversos problemas nas relações entre as pessoas, na saúde e também influencia o desempenho no trabalho. “É inegável que as novas tecnologias podem trazer inúmeros benefícios, mas temos de buscar um meio-termo, uma maneira harmoniosa de utilizarmos essas ferramentas sem nos tornarmos escravos das mesmas”, lembrou.

Durante o evento Moderna Idade, ocorreu a apresentação do grupo de teatro Oncoarte, constituído por pessoas que já passaram por uma situação de câncer. Também houve atividades de lazer, dança, oficinas de culinária e artesanato. Além disso, foram disponibilizados serviços de audiometria, aferição de pressão arterial, testes de glicose, dentre outros.

Depoimentos de participantes

Quer seja pelas falas dos idosos, quer seja pelos sorrisos expressando satisfação, o Moderna Idade deixou uma clara evidência: a nova geração de idosos está aí, modernos e engajados na construção coletiva de espaços e políticas voltadas para uma assistência integral e um convívio harmonioso com todos os segmentos etários. 






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Palavras de Moacyr Scliar

Na qualidade de profissional da área da saúde, tenho a maior admiração por "O Cuidador", bela publicação editada por Marilice Costi que preenche, com sensibilidade e competência, uma lacuna: aquela representada pela necessidade de amparar os que cuidam de pessoas com limitações. Este periódico é um benefício para toda a sociedade.



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