15 de setembro de 2015
Imprimir | Indicar a um amigo Abraçar é acolher a história do outro!
Quanto vale um abraço?
Quanto vale um abraço?

O CUIDADO NO ACOLHER HISTÓRIAS!

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Apesar de toda a cultura que permeia as relações no século XXI, falta muito acolhimento. Acolher significa hospedar, agasalhar, receber, atender, aceitar, dar ouvidos a, abrigar. Quando você abraça alguém, divide com este alguém o seu espaço pessoal e abraça toda a sua história[1].  Talvez seja por isso que tantas pessoas não conseguem se entregar ao contato físico do abraço, pois é preciso ter lugar dentro de si para ceder ao outro.

Todo corpo é repleto de memórias. Cuidar do Ser é cuidar do outro que tem uma face – um corpo que tem um semblante único.[2] Ao mobilizar seus conteúdos, é preciso delicadeza. Há corpos que não permitem aproximações devido a traumas de maus cuidados. Tais aproximações só existirão
se ele conseguir compartilhar sua história e para isto será preciso o acolhimento de alguém.

Como exercer o cuidado se quem precisa não quer saber de cuidados? O movimento em direção ao
outro não é fácil. O cuidador que não sabe dos próprios registros que carrega no seu corpo-memória, que segurança terá para ceder espaço interno ao outro?

A Arteterapia, através de seus recursos expressivos, pode facilitar uma brecha, permitir que se
exerça o cuidado sem invadir, que se compartilhe sem machucar. Um cuidador necessita conhecer para compreender, auxiliar, proteger. Medo, raiva, mágoas ou outro sentimento negativo guardado por alguém, que deveria ter sido cuidado algum dia, poderão aflorar em hora imprópria.

O cuidadorestá o tempo todo dando e recebendo informações. Seja na troca de olhares, seja
na troca de uma roupa da pessoa que cuida. Ela percebe o cuidador pelo olhar, pelo movimento, pelo tom de voz. Por isto, há pessoas que rejeitam certos cuidadores, porque eles não lhe passam o que precisam sentir: segurança e afeto, alívio para suas dores através de alimento, remédios, higiene, atenção.

O ato de acolher é demonstrado em toda expressão corporal. No abraço, partilha-se a energia capaz de sanar dores psíquicas e/ou aliviar enfermidades. E, ao acolher a história do outro, também se recebe vida e energia do outro, transfere-se energias, faz-se uma “transfusão de almas”[3],
quando se pode transmitir uma mensagem de reconhecimento do valor e excelência daquele indivíduo. Além disto, o abraço reafirma a confiança nos próprios sentimentos.

O cuidador precisa ser abraçado antes de abraçar, ser cuidado antes de cuidar, ser acolhido antes de acolher, ser alimentado antes de alimentar. Ter seu continente conhecido e estimado antes de penetrar no continente do outro. Talvez por isso é que gosto muito de abraçar. Quem abraça,
também é abraçado. Há vezes que me atiro no colo dos amigos, dos filhos e inclusive de minha mãe, em outra cidade que aos 93 anos, ainda é capaz de me dizer, podes vir, estarei a te esperar, como se fosse a Raposa a esperar o Pequeno Príncipe. O colo. Tão necessário para que nos energizemos para continuar a enfrentar o nosso cotidiano. Ouvir o simples: venha... estou aqui,
palavras sem rebuscamento algum, que são ditas por qualquer pessoa. Acolher não depende de classe social e nem de cultura. Abraçar é dar de si. Mas mais ganha quem dá. Reconhecer a simplicidade desse ato reside em vida e sabedoria.

Quando meu filho especial – gosto de dizer especial porque sinto o quanto ele é importante para mim, pelo que me tornei com ele – me visita, ele traz suas dores mas me abraça com muito calor. Minha mãe não sabia me abraçar na minha adolescência, mas na maturidade, quando passamos a
nos entender como duas adultas, ela dizia poucas frases e tinha muitos ouvidos. Culta, ela dizia coisa simples, tais como: O tempo, minha filha. Tudo passa. O que estás passando também passará. O seu olhar de ternura – passava da meia noite, hora que todas as idosas estariam dormindo – era o acolhimento que meu coração cansado precisava. A esperança no amanhã. Alimentada com o seu amor, eu dormia até tarde no dia seguinte, o que não era entendido pelas pessoas da família. Eu ia para “cuidá-la”, mas muito mais eu ainda precisava dela do que ela de mim. Apesar de todas as suas limitações físicas devido ao seu envelhecimento, ela me dava colo! Tomara todas as mães fossem assim.

Quando nos faltam as palavras, resta o corpo a abraçar. O corpo pode falar muito mais do que muitas frases. Até porque nem sempre a palavra dita é a adequada àquele momento, mas o abraço é universal, possui linguagem própria, provoca alterações fisiológicas positivas em quem toca e em
quem é tocado, reduz a sensação de isolamento, de depressão e de ansiedade.

O abraço pode dar segurança, importante para todos as pessoas, e muito mais para as crianças e idosos, que são quem mais depende de quem os rodeia. Quando o medo se sobrepõe ao desejo de participar de algum desafio da vida com entusiasmo, é importante receber do cuidador a confiança necessária para avançar. Essa dependência é o que pensamos real. No caso do cuidador esgotado
no ato de cuidar, não há idade. Quem assume filhos especiais cuidará a vida inteira. Daí que é preciso compreender para poder cuidar dessas pessoas que se dedicam intermitentemente. Então podemos citar o mito de Sísifo (2009). Uma mãe nunca descansa, não pára de gastar sapatos, carrega o filho para todo o sempre.

Como estimular o cuidado a um cuidador? Se ele direciona toda a sua energia para cuidar do outro e não cuida de si mesmo, como auxiliá-lo? É preciso valorizar e cuidar dos cuidadores, pois cada vez a sociedade dependerá mais deles. São muitas as variáveis. Afirma SCLIAR (2008, p.5) que, além de vocação, o ato de “cuidar não é apenas questão de generosidade, é questão de técnica, de conhecimento. E exige dedicação.” Conhecer como os outros funcionam é importante se este conhecimento trouxer o autoconhecimento.

A
palavra cuidador não está em qualquer dicionário. Mas ser cuidador é novidade? Seu significado está lá nas escrituras: os pastores[4] que cuidavam de seu rebanho. A metáfora do cuidador: o papel dos familiares, dos professores, dos religiosos, dos avós, dos amigos, de todos os profissionais que cuidam de alguém e de tantos outros.  As mães. A pesquisa realizada no CAPS de Porto Alegre (2007)[5], demonstrou que entre os cuidadores de pessoas portadoras de sofrimento psíquico, a maioria era mãe, prima, irmã, tia, avó. As mulheres cuidadoras raramente por opção. A
opção feminina pelo cuidar está mais ligada ao cuidador institucional, pois a maioria dos profissionais das áreas dos cuidados e da ajuda são mulheres. Familiares entram em exaustão.

 Foi a partir do último terço do século XVIII que a imagem materna muda radicalmente. As mulheres passam a receber cargas de informações para que elas mesmas cuidem de seus filhos e que os amamentem. O instituto materno é estimulado. Mesmo que houvesse ternura entre mães e filhos nos séculos anteriores, vai ser a partir de então que o amor materno passa a ser considerado ao mesmo tempo "natural e social, favorável à espécie e à sociedade”, afirma Elisabeth Badinter (1985, 146). O objetivo é resgatar a docilidade, a subserviência e a sobrevivência das crianças, porque as perdas passam a interessar ao Estado, que perde futuros soldados e matrizes (meninos e
meninas) na primeira etapa da vida quando a taxa de mortalidade é maior. É preciso manter vivos os seres humanos, pois eles são a riqueza do Estado. Para sensibilizar as mães, o discurso oficial
passa a ser de valorização da cidadania feminina, tornando-as indispensáveis à família. As que não aceitam o encargo, sofrem ameaças e punições. A maternagem passa a ser um dever.

Mas não só de cuidadoras-mães o Estado se beneficiou. Florence Nightingale[6] foi uma enfermeira inglesa que formou um grupo de mulheres, arrecadou lençóis e foi para a frente de batalha na guerra na Criméia. Os feridos dormiam no chãor, odeados de insetos e outros animais . Não cuidou só dos seres humanos, mas dos espaços de cuidar, os lugares de acolhimento, os lugares de tratar doentes. A “dama da lâmpada”, como passou a ser chamada pelos soldados, percorria todos os
leitos para saber como eles se encontravam antes de se recolher. Ela organizou manuais de enfermagem, orientou sobre a higiene, trato e cuidados para dar conforto aos doentes, definiu detalhes de arquitetura fundamentais para a qualidade dos ambientes hospitalares ingleses. Florence quebrou paradigmas e com isto resgatou a vida de muitas pessoas. Uma cuidadora na guerra. E existiram também as vivandeiras e as enfermeiras na Guerra do Paraguai, citadas no artigo de Hilda Flores (2011), como foram importantes para os homens ao cuidarem de
seu alimento, da sua roupa e de seus filhos! Enterravam os mortos e muitas vezes estancavam o sangue dos soldados usando tiras que rasgavam de suas roupas.  Quantas pessoas valorizam a
brasileira Ana Néri, conhecedora também de nossas ervas?

Hoje, a quebra de paradigma está em olhar não para quem precisa de cuidados, mas “para
quem cuida” e adoece no processo de cuidar. Acolher, abraçar e compreender, aceitar também suas dores, seus sentimentos de impotência, de raiva e de angústia, pois como todo ser humano, um cuidador também sente dores e tem suas mazelas. É preciso estimulá-lo a cuidar de si para que possa cuidar dos demais, pois um cuidador bem cuidado saberá cuidar melhor! (COSTI, 2008)

Os cuidadores, quando acolhem, autopreservam-se da dor? Esvaziados devido ao ato de doar-se continuamente, tornam-se uma árvore oca, frágil, pronta a tombar. Os cuidadores têm o direito ao autocuidado, tem direito de perseguir seus desejos e de seguir seus sonhos. Ir atrás dos desejos mais íntimos traz saúde mental, afirma Leloup (2007).

Um dos princípios do acolhimento é qualificar a relação trabalhador-usuário, que deve dar-se por parâmetros humanitários, de solidariedade e cidadania[7]. O cuidador precisa receber, alimentar-se de humanidade, desenvolver a sensibilidade, qualificar-se, conhecer seus sentimentos de empatia e saber lidar com eles, antes de se doar. Quem não tem condições de se colocar no lugar do outro, não pode trabalhar na área da saúde. Mas empatia demais pode gerar sofrimento.  Mas como ter empatia e compaixão sem sofrer? Para cuidar, é preciso respeitar a si mesmo, reconhecendo os próprios limites.

Por outro lado, há profissionais que tratam as pessoas com onipotência, como se os que dele precisam tivessem todo o tempo do mundo. Marcar hora e comparecer muito tempo depois é comum. Os funcionários-barreira, como considero os que abrem as portas para dizer que não sabem de nada, demonstram no seu movimento corporal que tem receio e medo de quem está ali, sofrido, pequeno, precisando de ajuda. O comum em alas psiquiátricas em hospitais públicos. Abrem a porta como se fizessem marcha-ré, sem olhar nos olhos, parecendo se envergonhar ao justificar a falta do profissional “superior”. E por não concordarem com isto, dizem com os lábios o
que o corpo nega.  Os ouvidores da angústia de quem espera. Quando o atendimento é pelo SUS, parece que se é fadado a ter que suportar qualquer coisa. Mas não é assim. Todos somos pagantes
de impostos, portanto,  os serviços que recebemos não são “de graça”.  São um direito constitucional.

Mães de portadores de sofrimento psíquico possuem uma galeria de maus acolhimentos. Este é um dos relatos: o filho estava sendo atendido num CAPS e não conseguia aproveitar o atendimento. Agendaram uma reunião com a mãe.  Às nove horas da manhã, ela estava lá mas ninguém a aguardava. “A doutora vem vindo”, diziam-lhe, “estamos tentando localizá-la”. Aos poucos, ela foi duvidando da escrita no pequeno papel. A mãe já perdera (...)

 

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Este artigo completo pode ser lido na Revista de Arteterapia - POMAR - Rio de Janeiro, 2010.


Por Marilice Costi




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Palavras de Moacyr Scliar

Na qualidade de profissional da área da saúde, tenho a maior admiração por "O Cuidador", bela publicação editada por Marilice Costi que preenche, com sensibilidade e competência, uma lacuna: aquela representada pela necessidade de amparar os que cuidam de pessoas com limitações. Este periódico é um benefício para toda a sociedade.



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