20 de agosto de 2011
Imprimir | Indicar a um amigo Eu amo, eu cuido!

Sábado. Primeiro cuidar de si. Ao seguir para a academia, percebo o meu bairro, considerado assim como o Bom Fim - bairro de Bem Viver - em uma das reuniões coordenadas pela UNESCO com vistas ao V Congresso da Cidade de Porto Alegre. Sou do bairro Farroupilha há quase quarenta anos. Orgulhosa de ser, decido assumir a minha parte no meu lugar, o espaço ao qual nos vinculamos afetivamente.

 

Ontem, ventou e choveu, mais ventou. Há galhos de árvores pelas ruas e, à minha frente, estão sacos de lixo cheios e vazios, que foram trazidos pelo vento e que seguirão para os bueiros. Lastimo não ter trazido uma sacola de casa. Retiro dois da boca-de-lobo e os cheios, que foram colocados na calçada defronte a um condomínio da década de setenta. Meu cérebro linca com a palestra do Prefeito de Bogotá, a questão da cidadania. Sou portoalegrense e preciso fazer minha parte.

 

Estou sem luvas, mas decido tirar aquilo da calçada. E percebo que há matéria orgânica misturada com material reciclável. No peso! Aqui e ali, amasso as caixas de leite com os pés e coloco os volumes diminuídos nas pequenas lixeiras colocadas ali perto no ano passado. Olho para o céu e percebo uma peça despencando da fiação. Páro, como faria meu pai, e procuro alguém por perto. Uma moça! Deve ser moradora. Ela me diz que cansou de pedir. Que eles vêm, amarram com arames mas estes logo se rompem. E tudo se repete. Observo que aquilo deve ser de uma das múltiplas redes que poluem a paisagem, as NETs. Um lixo no ar? Mas reclame novamente, pedi. Isto poderá cair na nossa cabeça.

 

Já vi tudo? Catadores dentro dos novos containers, moradores de rua futricando em busca de latinhas...e comentários: tem gente dormindo dentro e é por isso que as ruas estão ficando vazias! O caminhão os leva! E quem vai se dar conta deles? O imaginário urbano. Respiro fundo e entro na farmácia onde conto minhas peripécias aos atendentes. Ganhei interessados no V Congresso?

 

Atravesso a rua e comento com um vizinho com quem nunca me comuniquei. Ele está desalentado: o caminhão recolhe o lixo seco dos vizinhos e não leva o seu!... Daí, os moradores de rua estraçalham os sacos na minha calçada e tenho que limpar! Por isso, misturo tudo e coloco dentro do container. Mas senhor Alexandre, ligue para o 156. Faça sua queixa! Não adianta, arguiu, cansei deles. A credibilidade pública! Repito e nada de convencê-lo. E ele ainda diz: Veja, o container está na frente do bueiro, não deveria! Olha ali, empurraram para cá, colocaram lá!

 

Mais adiante, há latas de tintas enferrujadas (as mesmas há anos!) na esquina. A falta de fiscalização foi apontada naquela reunião! Fazer cumprir a legislação! Adiantaria punir?

 

O meu andar vai ficando quixotesco. Um homem mexe em muitos sacos de lixo na nossa pracinha. Vou até ele e lhe pergunto se colocou aquele saco no meio do canteiro gramado. Não fui! Sentiu medo. Ali há uns quatro quilos de ossos, provavelmente retirados durante a busca na grande lixeira, um chamariz aos cães. Não levo o assunto adiante e coloco-o dentro do container. Acho bom, que
ao levantar a tampa, há um sistema hidráulico que reduz o esforço para abri-lo. E começo a amar essas coisas que limpam meu bairro! E acredito que tudo foi escolha de cabeça muito bem pensada! Quem não produz lixo?

 

Lembrei de minha infância em Passo Fundo e de meu pai a dizer: Falta educação no povo! As escolas! Como é importante estimular o sentimento de pertença! Amo este lugar, estou aqui!

 

Tive vontade de conversar com todos os vizinhos, de bater de porta em porta... Quem me acompanharia? Afinal, ser cidadão não é esperar que os outros façam tudo!

 

E eu iria longe com o encadeamento de estímulos urbanos à minha memória. Tão importante mexer com os neurônios! Corro para a academia. Quase fechando. Mas estou feliz. Afinal, cuidar da cidade é também cuidar de mim!


Por Arq. e Urb. Marilice Costi.




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Palavras de Moacyr Scliar

Na qualidade de profissional da área da saúde, tenho a maior admiração por "O Cuidador", bela publicação editada por Marilice Costi que preenche, com sensibilidade e competência, uma lacuna: aquela representada pela necessidade de amparar os que cuidam de pessoas com limitações. Este periódico é um benefício para toda a sociedade.



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