20 de julho de 2011
Imprimir | Indicar a um amigo Das memórias da casa 1

Mãe e filha desentenderam novamente. A coisa foi séria. Ninguém quer ficar com a senhora,
disse-lhe Maria demonstrando irritação.

A mãe não queria falar com a cuidadora sobre a discussão que tivera com ela. Chateara-se porque a filha contava as brigas delas para os outros, que vinham lhe pedir que tivesse paciência com Maria, afinal, era viúva recente. A idosa a precisar de paciência. E tivera com a filha quando  menina? Não lembrava. Nada sobre o parto, muito menos dos cuidados de Maria.

A cuidadora contou-lhe que vira Maria llhe dando atenção, beijos, afagos, que fizera as suas unhas, arrumara os cabelos grisalhos... Verdade? duvidou ela. Não sabes o sofrimento que é para uma mãe ter que depender do filho na velhice... E sabes como a Maria é, né? Ela se irrita com tudo... Quero ir para outro lugar, não quero ficar aqui e incomodá-la. Você me arranja um asilo?

O passado nas brumas e distante cada vez mais. A mãe falou-lhe do medo de morrer de repente e não conseguir chamar a filha. Pediu segredo. Que Maria achava que ela, uma velha, queria controlá-la. Mas não quero não! foi categórica. Me preocupo... ela sai toda hora. O que faço se acontecer algo comigo?

A cuidadora foi conversar com Maria. Olhar de um lado, olhar de outro, todo o cuidado para não se atravessar na linha tênue entre as duas.

Maria entendeu e, antes de sair naquele dia, avisou. Voltarei tarde. E que na agenda ao lado do telefone estavam todos os nomes e os números, tudo certinho.

- Está bem, disse a mãe. Vá passear. E volte na hora que bem quiser. Não me importa – disse com certo desdém.

- Ótimo! disse Maria, sentindo-se aliviada.

A mãe completou com um não vou mais reclamar. É que me preocupo quando você sai...

Sentadas em frente à tevê, a cuidadora e a mãe conversaram. A cuidadora percebeu a tristeza na voz da mãe: não lembro o dia do nascimento da minha filha... e nem do marido dela. O que a filha achava muito bom. Para que lembrar daquele... Mas dos carinhos de Maria... queria tanto se lembrar...

Em seguida, a mãe pegou o terço e iniciou o quinto rosário do dia. Temos que rezar. Você reza todos os dias? perguntou à cuidadora. E repetiu a ladainha como fazia há anos. Rezar era tudo que sabia fazer, rezar era o que conseguia fazer, rezar era preciso para todos da família, já que ela sabia: tinha que salvar muitas almas antes de se ir. As ave-marias sumiam pelo ar, perdiam-se pelo corredor da casa e não duravam o tempo de Maria sair e voltar.


Por Marilice Costi




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Palavras de Moacyr Scliar

Na qualidade de profissional da área da saúde, tenho a maior admiração por "O Cuidador", bela publicação editada por Marilice Costi que preenche, com sensibilidade e competência, uma lacuna: aquela representada pela necessidade de amparar os que cuidam de pessoas com limitações. Este periódico é um benefício para toda a sociedade.



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